Entrevista - Karen Pesse

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Gabriel Aleks - 04/12/20

Temas:

Entrevistas,

Nano

O Nanoverse entrevistou Karen Pesse, ex-aluna do curso de nanotecnologia da UFRJ. Karen atualmente trabalha como consultora na IBM Belgium, porém já passou por diversos países: fez uma parte da graduação na Inglaterra, estudou por um período no Japão e fez o mestrado na Bélgica. Ela nos conta como que descobriu a nanotecnologia, como foi seu tempo durante a graduação e o que tem feito atualmente. Além disso, conta como foi seu processo de saída do país para estudar e trabalhar no exterior e compartilha dicas para alunos que buscam trilhar um caminho semelhante.

Em que ano você entrou na UFRJ?

Foi em 2012.

O curso de nano era bem recente ainda (foi fundado em 2010). Como você descobriu a existência dele?

Então, foi na internet. Eu estava estudando biotecnologia no Rio Grande do Sul. Na época eu estava morando lá, terminei a escola lá e comecei a universidade. Só que eu queria voltar pro Rio de Janeiro porque fui criada lá. Eu comecei a olhar os cursos que fossem parecidos com biotecnologia e na época achei o curso de nanotecnologia com ênfase em bio. Eu entrei em contato com o Gilberto e com a Renata Simão e expliquei: “olha, tô estudando biotecnologia no Rio Grande do Sul mas quero voltar pro Rio de Janeiro”. Então eu fiz o ENEM, tirei uma pontuação que era suficiente pra nanotecnologia e eles deixaram eu fazer transferência.

Existiam outros cursos também na área de bio. Qual diferencial você enxergou na nanotecnologia?

Então, sinceramente eu só pesquisei transferência pra curso de biotecnologia. O curso que tinha o nome de biotecnologia era o curso de nano, então eu quase que entrei lá por acaso. Mas enquanto eu estava pesquisando sobre o curso de nano eu comecei a achar várias coisas na internet, afinal era um curso novo. Então tinham alguns vídeos, tinha um pouco mais de visibilidade. Eu comecei a pesquisar sobre nanotecnologia e achei muito interessante. Comecei a ver potencial no curso porque embora no Brasil não tivesse muita coisa, tinha muita coisa de nano no exterior. E eu sempre quis sair do país. Eu queria visitar a Europa - eu moro aqui agora mas na época eu não conhecia. Eu queria visitar o mundo, queria viajar, e pensei “poxa, se eu entrar nesse curso de nano eu acho que vou ter muita oportunidade de trabalhar no exterior, então não parece uma má ideia, vamos tentar”. E aí eu fui.

Entendi. Então desde aquela época a possibilidade de poder ir pro exterior já te era atraente.

Na verdade, a minha família é um pouco mais humilde. E eu tenho um tio que estudou na UFRJ. Ele estudou ciência da computação e conseguiu um trabalho nos Estados Unidos. Ele foi pra lá e se deu muito bem. Então eu sempre olhava pro meu tio e pensava “poxa, quero estudar na UFRJ, quero sair do país”. E eu fiquei nessa.

E depois que você entrou na universidade você participou de alguma atividade extracurricular?

Eu participei sim de algumas atividades extracurriculares. Eu trabalhei um ano no laboratório do IF (Instituto de Física) e depois fui pro LADIF (Laboratório Didático do Instituto de Física), fiquei acho que seis meses no LADIF e depois fui fazer o extinto Ciências Sem Fronteiras, que era uma maravilha. Eu cheguei em Londres com a bolsa do Ciência Sem Fronteiras e usei todo o dinheiro que o programa dava pra conhecer o máximo possível de universidades europeias. Até o povo falava “nossa, você viaja tanto”. Mas acho que ninguém viu a estratégia que eu tinha por trás disso. Eu enviava email pras universidades e pros laboratórios e falava “poxa, tô interessada no seu laboratório e na sua pesquisa, posso te visitar?”. E toda vez que uma universidade me convidava eu viajava pro país, visitava a capital e ia nos laboratórios. E foi assim que eu fui convidada pra fazer um mestrado na Europa.

Entendi. E como você era como aluna? Encontrei um artigo que você publicou em 2017 no LinkedIn chamado Dare to Explore - Como Conquistar seu Lugar no Exterior no qual você diz que o aluno não precisa ser excelente. Você diria que você foi excelente?

Olha, o que eu posso te dizer é que eu era muito complicada. Não é que eu me arrependa - até porque me levou ao que sou hoje - mas eu só fui em uma caninha (uma festa da UFRJ) nesses anos todos que eu estudei na UFRJ. Eu só fui em uma festa da FAU. Eu me formei com o CR sete e pouco? Sim, mas a que custo? Eu sinto como se eu não tivesse me divertido o suficiente enquanto estive na faculdade.

E depois que você se formou você sentiu que suas expectativas sobre o curso haviam sido atendidas?

Olha, naquela época eu não tinha uma visão tão clara do que eu queria fazer. Então eu estava deixando o barco ser levado pelo vento. Mas uma coisa que me frustrava muito na UFRJ é que eu tinha a sensação que as pessoas com talento - e eu não tô falando por causa do que aconteceu comigo, mas pelo que aconteceu com colegas meus - terminavam a faculdade e meio que a coisa não andou. Então uma coisa que me deixou meio triste e que não completou a minha expectativa é a falta de apoio que um graduando tem quando está terminando a faculdade.

E você percebeu alguma diferença de tratamento ao aluno na Bélgica?

Sim. Os alunos na Bélgica têm um suporte muito grande do governo e de empresas interessadas em contratá-los. Aqui tem muita oportunidade de estágio. Se você quiser muito fazer um estágio você pode fazer um estágio voluntário. Você faz de graça e a empresa fica feliz de te receber. Tem muita secretaria... não só na Bélgica mas como em Londres também tinha. Secretários prontos pra te ajudar no próximo passo da sua carreira e a encontrar emprego. E não só pessoas mas também clubes da universidade formados por estudantes te ajudam no impulsionamento da sua carreira. Então é realmente como se tivesse espaço pra todo mundo.

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Artigo da Karen publicado no LinkedIn com dicas para conseguir um perfil atraente e conquistar uma vaga no exterior. Leia aqui

Entendi. E sobre a sua saída do Brasil, como foi? Você fez todo o processo por conta própria? Ou você procurou alguma entidade pra te auxiliar?

Eu fiz tudo por conta própria. Eu escolhi a Universidade da Bélgica porque foi o país que eu me identifiquei mais, foi o laboratório que eu me identifiquei mais com a pesquisa e eu também gostei muita da professora que foi minha coordenadora. Mas a Universidade da Bélgica tinha um pequeno probleminha: eles não tinham bolsa de estudo. Então eu cheguei na Bélgica com duzentos euros na minha conta bancária, o que não dá pra pagar nem o aluguel de um mês. Eu meti a cara, cheguei aqui sem nada. Em três dias arranjei emprego de garçonete. E foi isso. Eu tinha aula de oito da manhã até às cinco da tarde, depois de sete às nove eu tinha aula de holandês e às vezes dez horas da noite eu começava no bar até seis horas da manhã. Eu chegava em casa, tomava banho e ia direto pra aula. Três vezes na semana sem dormir. Não foi algo muito tranquilo, talvez se uma empresa tivesse me ajudado teria sido muito mais fácil, mas eu tava muito focada no que eu queria. Então pra mim não tinha cansaço, não tinha tempo ruim. Eu não quero romantizar a minha luta, eu não acho que ninguém mereça passar por isso. Foi muito difícil. Mas na época eu não sabia como conseguir suporte então eu fui do jeito que deu. Mas depois de um tempo eu consegui algumas bolsas de estudo e aí consegui parar de trabalhar.

E como foi a questão do idioma? Afinal, o holandês é uma língua complicada, né? As aulas eram em inglês?

A universidade tinha todas as aulas de engenharia em holandês, mas eles decidiram que queriam ser mais inclusivos e colocaram as aulas em inglês. Isso foi quando eu entrei lá. Então na minha turma tinha eu, uma chinesa e um indiano. Todas as outras pessoas eram belgas. E tinha uma professora que era um pouco contra trocar a língua do curso, então metade do curso dela ainda estava em holandês. Foi difícil, passei com 5, mas passei! O holandês é uma língua muito difícil. Eu estudo holandês há quatro anos e até hoje eu não sou completamente fluente. Eu consigo descolar uma entrevista de emprego, falar com o carteiro e tal, mas não trabalho em holandês ainda. Não cheguei nesse nível mesmo estudando por quatro anos.

Você tinha comentado que se identificou mais com a Bélgica. Qual o motivo disso?

A Bélgica é um país de muito contraste. Eu diria que o centro na Bélgica quase não existe, aqui todo mundo é um pouco extremo. E eu tive muita sorte de conhecer o extremo que é muito carismático, que acolhe as pessoas. Eu conheci belgas maravilhosos que me ajudaram muito. Enquanto eu estava em Londres fiz várias amizades daqui, o que influenciou muito pra eu acabar vindo pra cá. Sem falar que a culinária belga é maravilhosa, super influenciada pela culinária francesa, então eu também fui atraída pelo estômago!

E qual foi o assunto do seu mestrado?

Eu fiz meu mestrado em engenharia de materiais mas com foco em eletrônica. Tanto que minha tese de mestrado foi em wearables - internet das coisas. E comecei a mexer muito com sensores. No meu projeto do mestrado eu estava integrando sensores em recém-nascidos com problemas de movimento e analisando os movimentos deles pra ver se tinham alguma deficiência ou se poderiam desenvolver alguma. Eu achei super interessante, não era muito relacionado à nanotecnologia mas foi o desenvolvimento da minha carreira.

Agora pensando em um aluno que está prestes a se formar e pensa em fazer uma pós-graduação no exterior, o que você julga ser mais importante pra ele conseguir isso?

Olha, a experiência que eu tenho aqui da Europa é a seguinte: estudante de bacharelado na Europa não faz estágio. Você só começa a fazer estágio quando tá no final do mestrado. E na Europa se você não tem mestrado ninguém te contrata. Então uma coisa que eu falo pras pessoas que tão começando agora é focar muito em ter um CR legal. Não precisa ser um CR muito maravilhoso. Um CR 6 ou 7 já tá bom. E se você tiver experiência de estágio, ótimo, eles vão ficar super impressionados, mas se não tiver tenta vir do mesmo jeito, porque aqui estudante de bacharelado e de mestrado é considerado muito júnior. Você vai conseguir muita oferta de estágio vindo pra cá. Não precisa ficar nessa coisa de “ah meu Deus, meu CR não é bom, eu não tenho experiência...”. Vem, só vem e tenta aqui! Ou então usa o LinkedIn, ele é maravilhoso pra encontrar estágio e pra encontrar os student jobs, que são os empregos pra estudantes. Uma vez que você consiga um student job ou um estágio estável na Bélgica, sua vida tá feita. Vem pra cá, estuda, trabalha, arranja um emprego. Eu tenho uma amiga que fez isso. Na época do fundão eu dava carona pelo Caronaê e comentei com uma menina que eu dava carona que estava indo embora pra Bélgica tentar a sorte. Nós mantivemos contato e dois anos depois ela veio pra Bélgica pra mesma faculdade que eu fiz, tá empregada como consultora ganhando bem, vida estável aqui.

Entendi. E esse “vem” que você diz é em qual sentido? Aplicar pra vagas no exterior e esperar o resultado aqui no Brasil ou já estar no país e aplicar pras universidades lá?

Dá pra fazer os dois. Assim, brasileiro que não tem dupla-nacionalidade europeia tem que entrar com visto. Então conseguir um visto de estudante em qualquer universidade é sua porta de entrada. Chegando aqui - ou nem espera chegar aqui, mas já tendo a carta de aceite da universidade - começa a aplicar que nem louco pra estágio. Porque o que mais conta pra arrumar emprego aqui é experiência de estágio na Europa. Inclusive uma coisa que eu já falei pra algumas pessoas é que você pode vir pra cá, aplicar pra uma faculdade mas não ir nas aulas. Mas pega o status de estudante pra poder fazer um estágio aqui. Porque com a experiência de um estágio você já sai na frente de muita gente.

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Formatura da Karen na Ghent University

Tem um aspecto interessante do teu perfil do LinkedIn: você omite que estudou na UFRJ. Você fez isso com algum objetivo estratégico?

Na verdade eu tenho pensado até em colocar isso de volta. A situação é a seguinte: tem muitas empresas na Europa que são conservadoras e que preferem contratar pessoas locais, europeus. Então quando eu me mudei pra cá eu omiti que estudei na UFRJ porque quando os recrutadores me buscam no LinkedIn eles encontram só o bacharelado em Londres. Então eles não têm ideia de onde eu vim. Mas o cenário tá mudando um pouco, ainda mais depois de todo o movimento do Black Lives Matter. Houve um impacto aqui também. A diversidade - e nós somos considerados diversos aqui, somos latinos - tá começando a ficar em alta na Europa. E o que antes não era percebido como tão bom, que é ser latino, do Brasil, ter um background diverso, tá começando a trabalhar a nosso favor. Então agora tá começando a crescer um monte de iniciativas também de empresas de consultoria grandes, como a Mckinsey e BCG, de contratar pessoas com um background diverso. Eu tenho pensado… tenho pensado não, eu vou colocar de volta que sou da UFRJ. Outra coisa que eu omiti foi meu nome. Meu nome completo não é só Karen Pesse, é Karen de Sousa Pesse. Eu omiti o “de Sousa” pra não ser tão óbvio que eu não sou europeia. Então é uma coisa que eu fiz estrategicamente sim na época que me mudei pra cá porque era um cenário mais conservador, mas a mudança que eu tenho percebido de 2016 pra agora é inacreditável. Inacreditável mesmo. Não só na empresa que eu trabalho mas em várias empresas pela Europa e em várias iniciativas que têm aparecido no networking, no LinkedIn.

Outra coisa em relação ao seu perfil é que você deu uma remodelada na carreira, certo? No seu about você não foca tanto no aspecto científico de sua carreira, mas sim no aspecto de gestão de pessoas. Como aconteceu essa mudança?

Então, na verdade eu não faço gestão de pessoas, mas sim de projetos. A gestão de projetos é um caminho muito fácil pro engenheiro porque tem muita demanda, paga bem e é interessante. Eu ainda tenho contato com a parte científica porque faço gestão de projetos científicos, então não é como se eu tivesse saído totalmente da minha carreira. Mas eu definitivamente não fico mais em laboratório. Eu acho que a partir de um momento na sua carreira você tem que escolher se você vai ficar na parte de academia, de universidade, de research and development, ou se você vai pra indústria e vai focar mais na gestão de projetos. Eles chamam de project management, mas também tem o program management no qual você gere uma série de projetos e talvez até uma conta inteira de um cliente. E como eu disse, é um caminho interessante, ainda mais porque em consultoria você tem a possibilidade de trocar de projetos muito rápido. Às vezes tem projetos que duram 3 meses, 4 meses, um ano, mas você nunca chega ao ponto de ficar entediado. E eu gostei dessa vida e resolvi continuar.

Depois de terminado o mestrado na Bélgica você fez o quê?

Eu também estudei no Japão. Lá eu tava trabalhando com carros inteligentes, o que não tem nada a ver com nano. Mas eu gostei muito da experiência de trabalhar no Japão. Depois eu fui contratada pela IBM direto da universidade. Eu fiz um estágio na IBM enquanto era estudante e eles me contrataram depois.

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Karen em seu período no Japão

E eles te encontraram pra um emprego científico ou você foi direto pra gestão de projetos?

Eu fui contratada como consultora estratégica. Digamos que tem uma empresa e eles gostariam de lançar um produto. Uma empresa farmacêutica quer lançar um aplicativo de celular pra estar em contato com os pacientes. Então eu vou nessa empresa e pergunto qual o valor que a gente vai trazer pra esse aplicativo, quais são as pessoas que a gente vai trabalhar com, depois você começa a entrevistar as pessoas que você vai fazer o aplicativo para - que são os end users, usuários finais - pra você ter certeza que tá fazendo um projeto que tem um valor real. Depois você estima quanto tempo vai demorar pra esse projeto ser feito e começa a parte da entrega.

1 comentário

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  • A Karen é um exemplo pra nós brasileiros que sonhamos em estudar no exterior!
    Ela começou uma corrente que continua se extendendo até hoje!