Entrevista - Renata Simão

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Gabriel Aleks - 13/09/20

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Entrevistas,

Nano

A primeira entrevistada do Nanoverse é uma das pessoas fundamentais para a existência do curso de nanotecnologia (UFRJ).

Entrevista - Renata Simão

Embora seja uma área com bastante potencial, a graduação em nanotecnologia não é comum no Brasil. De acordo com o Guia do Estudante, apenas 5 instituições oferecem cursos nesta área: UFRJ, PUC-Rio, UFRGS, UFRN e UNISAL.

Vejamos como foi o processo de reconhecimento da nanotecnologia na UFRJ.

O primeiro artigo publicado no site da UFRJ contendo a palavra "nanotecnologia" data de 2004 e aborda as possibilidades que desenvolvimentos nessa área trazem. Em 2005 foi inaugurada a Escola de Nanotecnologia, um curso de verão multidisciplinar no qual os alunos tiveram "direito a palestras, minicursos, atividades práticas em laboratório (...)" - tudo voltado ao ensino e familiarização da nanotecnologia. A segunda edição da Escola de Nanotecnologia surpreendeu pelo grande número de alunos inscritos para participar, mostrando assim uma grande demanda pela área. Outros eventos semelhantes ocorreram nos anos seguintes - como a I Semana de Nanotecnologia (em 2008) e a 3a Escola de Nanociência e Nanotecnologia (em 2009) - até que, em 2010, a graduação em nanotecnologia surgiu e a primeira turma do curso começou a ter aula, com 30 alunos no campus Cidade Universitária e 20 alunos no polo de Xerém.

Leia a seguir a entrevista que fizemos com uma personagem fundamental no processo de criação do curso, a professora Renata Simão. Ela é formada em física pela UFRJ, possui mestrado em física (com pesquisa no departamento de física dos sólidos) e doutorado em engenharia de materiais e metalurgia - ambos também pela UFRJ. Trabalha com microscopia de força atômica e com microscopia de varredura desde o doutorado. Veja aqui o currículo dela.

O curso nasceu de uma parceria entre a Poli, o IF, o IBCCF e o IMA. Como surgiu a ideia de sua criação?

Essa ideia já existia de alguma forma entre nós físicos. Eu sou física, assim como o Gilberto Weissmüller e o Rodrigo Capaz.1 Nós três trabalhávamos juntos, tínhamos todos interesse em microscopia de força atômica e, discutindo esses assuntos, pensamos: ‘por que não fazer um curso sobre nanotecnologia?’ Porque na verdade quando você pensa na pós-graduação, principalmente, e mesmo em empregos, você vê que a nanotecnologia é uma área multidisciplinar. Sendo assim, nós vemos uma deficiência da formação dos nossos alunos. Isso porque nossos alunos são físicos, químicos, engenheiros de materiais ou biólogos. Então como preparar uma pessoa para desenvolver um material sendo que ela precisa dos conceitos físicos fortes e que ele possa ser aplicado também na parte biomédica? Foi daí que começamos a pensar: precisamos da união. Vamos fazer um curso que garanta isso para o aluno desde o início, que ele seja aquela pessoa diferenciada, aquela pessoa que gosta de ciência, gosta de estar no limite da tecnologia mas não consegue escolher para qual área ir - se na biologia, na física ou na química. Existem muitos meninos e meninas que são assim, então essas pessoas conseguiram encontrar um lugar em que conseguem desenvolver trabalhos que estejam relacionadas a todas as áreas do conhecimento ao mesmo tempo, desenvolvendo novas tecnologias. Essa foi a nossa ideia.

Isso é um aspecto bem forte do curso. Muitas pessoas são atraídas para ele justamente porque não queriam ter que escolher um curso - como física - e parar de ver as outras matérias.

Sim, acho que vem muito disso. “Ah eu adoro física, mas não gosto só de física. Eu gosto de química também, gosto de biologia”. Biologia é uma matéria encantadora e hoje a forma como os professores estão ensinando no ensino médio torna-a cada vez mais encantadora, cada vez mais perto da química e da física. É nos sistemas biológicos em que essas 3 áreas estão muito próximas, então podemos pensar em como fazer uma máquina que faça coisas similares a que organismos vivos são capazes de fazer. A nanotecnologia vem muito de encontro a este pensamento, dessa união em tentar replicar sistemas biológicos.

tissueengineering

A nanotecnologia pode ser aplicada na bioengenharia tecidual, um campo em que se interceptam a engenharia, a ciência de materiais e a biologia. Na imagem, uma válvula cardíaca feita a partir de processos da bioengenharia tecidual. Créditos: Wikipedia

Então foram vocês três - a senhora, o professor Rodrigo Capaz e o professor Gilberto Weissmüller - que começaram o curso?

É, começou com a gente e aí chamamos um pessoal da química para discutir. O professor Pierre2 discutiu muito com a gente sobre a grade e tudo mais. Apesar da química não ser uma das responsáveis pelo curso, houve muita discussão com várias pessoas da química, mais fortemente com o Pierre. Depois convidamos o IMA para se juntar e foi essa equipe que resolveu toda a grade e começou a desenhar o curso. Nós pensamos: “vamos começar a grade com disciplinas que já existem”. Você vê que as disciplinas que agora têm a cara mais do curso foram disciplinas criadas depois, porque era muito mais fácil começar o curso com uma grade que já existe, disciplinas que já eram oferecidas na UFRJ. Você precisa de muito menos professores para isso. Nós queríamos unir mas também queríamos tornar o processo simples para que ele fosse viável. Sendo viável, aí se começa a adaptar a grade para garantir cada vez mais o viés em direção à nanotecnologia avançada.3

O fato de utilizar disciplinas que já existiam simplificou, certo? Quais foram outras dificuldades encontradas no processo de criação do curso?

É, a gente tentou simplificar justamente ao pegar disciplinas já existentes. O processo tem suas complicações relacionadas a ser um curso - e hoje o único da UFRJ - que é multicentro, multiunidade. É o único curso que sobrevive até hoje sendo dessa maneira. Isso gera algumas complicações. Ninguém sabia como gerir um curso dessa maneira. Nós temos nos preservado assim e tentado garantir que ele continue desse jeito porque foi assim que nós o imaginamos. Ele tem que permear diferentes centros e diferentes unidades. Isso foi um complicador. Ao mesmo tempo, a gente tentou simplificar ao criar poucas disciplinas e utilizar disciplinas já existentes. Além disso, quando ele foi criado ele foi pensado ao mesmo tempo para Xerém, que hoje é o polo de Duque de Caxias, e para o Fundão. Eu fui a primeira coordenadora do curso e coordenei-o nesses dois polos. Foram criados cursos separados mas com o mesmo conteúdo. Depois, nós resolvemos que era melhor o polo de Xerém ficar independente, afinal eles têm um outro viés, uma outra natureza. Eles estavam se criando sozinhos, então era melhor que o polo procurasse as expertises próprias. Aí nós também procuramos as nossas próprias expertises. A gente foi dando um viés que tivesse mais a cara dos professores do campus fundão e o pessoal de Xerém foi dando mais a cara do campus deles, do viés que eles têm, que é focado mais na área de biologia com grande interação com o INMETRO. Por isso o professor Carlos Achete estava envolvido em tudo. Na época, ele era um líder da divisão de materiais do INMETRO, então ele também achava que o INMETRO tinha que modificar e intervir de alguma forma. O INMETRO poderia garantir um conhecimento mais amplo, disponibilizar os laboratórios para que os alunos do campus de Xerém pudessem utilizá-los. Foram coisas que aconteceram ao mesmo tempo. A divisão de materiais foi criada lá no INMETRO em 2003 e a partir daí o INMETRO também começou a atuar nessa área e foi criado o campus de Xerém. Depois, decidimos criar o curso de nanotecnologia e a coisa foi andando. É um trabalho de muitas mãos, eu diria.

A senhora comentou que o curso de nano no polo de Xerém possui uma natureza diferente do polo do Fundão por conta das coisas que acontecem no INMETRO. Poderia explicar um pouco essa diferença?

Em uma universidade como a UFRJ, o professor ensina disciplinas que estão presentes em seu dia a dia de pesquisa e extensão. O conhecimento é vivo e em desenvolvimento. Assim, um curso é fortemente influenciado pela qualificação de seu corpo docente, que define o viés das disciplinas. O polo de Xerém foi influenciado pelo instituto de biofísica pelo seu primeiro diretor, o prof. Geraldo Cidade, e outros professores que pensaram o polo. Assim, naturalmente o viés biológico ficou mais forte lá do que no Fundão onde o IMA, a Escola politécnica e o Instituto de Fisica tiveram também forte influência.

inmetro

Vista de alguns dos prédios do INMETRO (campus Xerém). Créditos: INMETRO

A UFRJ foi a pioneira na criação de um curso de graduação em nanotecnologia no Brasil. Uma outra maneira comum de alguém entrar na área de nano é fazendo uma graduação em algum curso científico, como química ou física, e depois direcionar a pós-graduação para esse setor. Qual a vantagem de se ter um curso específico em nanotecnologia?

Olha, eu acho que a grande vantagem é que quando você entra na universidade você está muito mais jovem e muito mais aberto para novos conhecimentos. Você entra já recebendo todo aquele conhecimento, então sua base fica muito mais forte. Sua capacidade para aprender é muito maior. Então eu acho que é na graduação que você realmente se forma. Então você se forma bem na física, na química, na biologia e as portas todas são abertas, e daí você pode se especializar. Foi essa a nossa crença quando idealizamos o curso.

Quando o curso surgiu, lá em 2010, a senhora foi a primeira coordenadora. O que o curso conquistou nesses primeiros 10 anos de existência?

Acho que o curso conquistou um respeito externo. Os químicos falavam “para que nanotecnologia, um químico é muito melhor”. Os físicos falavam “para que nanotecnologia, um físico é muito melhor”. Os engenheiros de materiais diziam a mesma coisa. A gente tem mostrado que os alunos que se formam em nanotecnologia na UFRJ têm um diferencial enorme. Eles ganharam um respeito na sociedade, nas empresas, nos cursos de pós-graduação. Eles são bem aceitos na maior parte desses ambientes. Mesmo que depois o aluno faça uma segunda graduação, ele faz com uma maturidade muito maior. Vocês, alunos de nanotecnologia, se formam muito maduros apesar do curso ser apenas de 4 anos. Então eu acho que isso é uma das coisas mais importantes: nós ganhamos respeito. As pessoas que antigamente diziam que o curso não levava ninguém a nada e que não viam o porquê de sua existência agora repensam isso e já dizem que o pessoal que se forma em nano é bom. Isso eu acho que é uma coisa bem legal. Além disso, toda a maturidade que nós do corpo docente ganhamos de conseguir coordenar o curso durante 10 anos e garantir que a coordenação mude de 2 em 2 anos e de conseguir que todas as unidades ainda estejam comprometidas com o curso. Neste momento, estamos repensando a nossa grade - agora já baseada em novos professores. Então assim, essas coisas são ganhos muito grandes para a universidade. Nós já temos vários alunos nossos que já estão trabalhando com nanotecnologia. Temos a nossa empresa junior, a Auger4, que foi um grande ganho para nossos alunos. Então acho que o nosso curso tá ganhando maturidade e eu vejo isso com muito bons olhos. Tanto o nosso, no Fundão, quanto o de Xerém. Eles estão ganhando uma personalidade própria.

O curso de nanotecnologia, diferente de muitos outros, não possui um TCC. Qual outro trabalho o aluno deve fazer para se formar?

Preferimos, ao criar o curso, tentar garantir uma vivência do aluno nas diferentes áreas do conhecimento. Assim, o aluno tem que fazer 4 IPNs (Iniciação à Pesquisa em Nanotecnologia). Nestas IPNs o aluno passa por laboratórios diferentes fazendo trabalhos experimentais ou teóricos que ele tem que apresentar no final do semestre.

A coordenação faz um rodízio entre professores de cada um dos institutos responsáveis pelo curso e o ciclo está recomeçando agora com a senhora representando a Poli, certo?

Sim, esse é o padrão que pretendemos manter. Eu fui a primeira coordenadora (2010-2012) e representei a Poli. Depois foi o Gilberto Weissmüller (2012-2014), representando o IBCCF. Em seguida foi a Maria Inês (2014-2018), representando o IMA. Depois foi o Rodrigo Capaz (2018-2020) como representante do IF. Completamos agora o ciclo e eu entro de novo. O próximo coordenador deve ser da área biológica. Acho que seria interessante, quando voltar para materiais, que quem assuma seja o Programa de Engenharia de Nanotecnologia. Acho que seria interessante integrar cada vez mais a graduação com a pós-graduação. Inclusive algumas pessoas desse programa dão aula para vocês. Queremos que o curso continue a ser multi-unidades e o Programa de Engenharia de Nanotecnologia se integre cada vez mais com a Engenharia de Materiais.5

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A coordenação do curso de nanotecnologia da UFRJ segue o rodízio indicado acima. A professora Renata, atual coordenadora, representa a Escola Politécnica.

Entendi. E quais são seus objetivos agora que volta à posição de coordenadora?

Então, muitos dos planos meio que já foram executados pelo Rodrigo Capaz no ano passado e estão sendo implementados agora. Eu tenho só o trabalho fácil, só os louros! A nossa ideia de modificação é toda a reestruturação da grade - a reforma curricular que fizemos. Tem também a possibilidade do duplo-diploma com a biofísica, a física e a engenharia de materiais. O aluno se forma em nanotecnologia e engenharia de materiais com 6 anos ou um pouquinho mais e sai com dois diplomas. Você também tem menos pessoas pedindo transferência do curso. Tínhamos muitos problemas com isso. O aluno entrava na graduação em nanotecnologia e pensava “ah, não vou ser nada nesse curso” e acabava mudando. Agora ele não precisa mudar, se ele quiser continuar ele já sabe que vai ter a possibilidade do duplo-diploma, sabe quais disciplinas precisa fazer para adiantá-lo. Então ele já sai com o duplo-diploma em um tempo de curso bem razoável seguindo sua vocação. Acho que isso é um dos grandes ganhos dessa reforma que estamos fazendo. Um curso não é estático. Existem outros cursos muito estabelecidos, como física ou química, e até eles são dinâmicos. Nosso curso é mais ainda. A gente tem dado esse dinamismo ao curso com todas essas reformas que temos tentado implementar. Uma outra coisa que acho bem importante que a gente fez durante a coordenação do Capaz foi a questão da IPN. A gente quer que um aluno, quando entre na IPN, não fique com o mesmo professor. Os alunos não têm a consciência do quanto é importante para eles e para sua formação fazer IPNs em diferentes unidades. Eu tenho uma visão de laboratório muito diferente de um laboratório do IMA, que também é de materiais. Então a visão de engenharia de materiais é diferente da visão do IMA, que é diferente da visão da química, que é diferente da visão da biofísica, da farmácia, da física. Cada um vai te dar uma IPN, um ganho de conhecimento, um tipo de orientação, um tipo de forma de se trabalhar que é muito diferente. Então eu acho que um ganho muito grande foi essa coisa também da gente garantir as IPNs como a circulação dos alunos através de todos os institutos. Você conhece como é que o laboratório de biologia trabalha. Depois vai em materiais e vê como que um laboratório de materiais trabalha. Ah, mas será que o IMA é um pouco diferente? Aí você vai e faz uma IPN lá no IMA. Ou então vice-versa, o que você também pode fazer. Então isso de você conseguir andar por todos esses institutos diferentes eu acho que é um grande ganho e a confirmação do que a gente acredita para o curso. Quando criamos o curso nós acreditávamos nessa formação multidisciplinar e eu insisto nela. Eu gosto dela e acredito no que a gente criou desde o primeiro dia. A questão da IPN tem que ficar cada vez mais forte. O grande desafio que acho que ficou para mim agora é a questão da extensão. O pessoal que entrou agora, em 2020, passa a ter créditos obrigatórios de extensão. Eu gostaria que o pessoal de 2019 abraçasse a ideia, mas acho que não existe espaço para isso.

Como a senhora explicaria a pesquisa em nanotecnologia na área da engenharia de materiais?

Eu digo o seguinte. Quando eu fui fazer meu doutorado, lá em 1991, eu comecei a trabalhar em nanotecnologia - apesar de não saber. Eu comecei a trabalhar com STM (Microscopia de varredura por Tunelamento) sob a supervisão do professor Carlos Achete. Então assim, tenho toda uma carreira traçada na nanotecnologia desde aquela época. Agora eu saí da área mais básica, que foi meu doutorado, e fui para a área aplicada. Mas não saí da nanotecnologia em nenhum momento. A gente trabalha com AFM (Microscopia de Força Atômica), com filmes ultrafinos... então estamos o tempo todo lidando com isso. Existe muito espaço para a nanotecnologia em materiais. Todo o trabalho que eu faço, por exemplo, em magnetismo com o pessoal da física; o trabalho com polímeros biodegradáveis; o trabalho com nanocompósitos e em superfícies como um todo: são todos trabalhos da área de materiais acoplados a outras áreas - ou à biologia, ou à química ou à física. A maior parte dos trabalhos de ponta hoje em materiais são trabalhos que envolvem, de alguma forma, algum conceito da nanotecnologia. Você hoje só consegue aprimorar os materiais usando conceitos da nanotecnologia. É um caminho infinito em todas as áreas. Nos metais, nos cerâmicos, nos polímeros, nos biomateriais; toda a parte de microeletrônica; no magnetismo, na parte de armazenamento de dados; materiais para esporte aprimorados, em geral, também têm relação com nanomateriais. Então assim, eu acho que a nano está na nossa vida. Chegou e vai ficar. Então, como esses materiais são materiais que a gente precisa, tudo que é tecnologia, é novo e tem sido desenvolvido com propriedade aprimorada é nano! Exagerei, né? Mas acho que é isso aí.

nanosports

A nanotecnologia já é aplicada no tênis: nanopartículas de argila são utilizadas em uma das camadas internas da bola, dificultando o escape do ar e permitindo que a bola mantenha sua pressão, aumentando assim o tempo que ela quica.

Lá no site da nanotecnologia da UFRJ tem uma reportagem que a TV Brasil fez em 2010 sobre o surgimento do curso. A senhora aparece em um trecho e comenta que daqui a 10 anos - ou seja, agora - todo mundo teria pelo menos um material que conteria nanotecnologia. Essa sua previsão se confirmou?

Bom, todo mundo tem pelo menos um celular [diz, rindo]! Mas assim, o shampoo que eu uso no meu cachorro, que tem dermatite, tem nanotecnologia. No esporte, a raquete de tênis, tem nanotecnologia. Os materiais dentários tem nanotecnologia. A pasta de dente tem nanotecnologia. É mais ainda do que eu conseguiria imaginar naquela época. Acho que, quando falamos em medicamentos, o caminho está seguindo em direção a farmácos com liberação controlada. Ela já é uma verdade para muitos remédios. Alguns tecidos - os tecidos inteligentes - são nanotecnologia. Você pode ir muito além. Não acho que me enganei.

Entendi. Acho que algo que talvez tenha dado a ilusão de que o hype da nanotecnologia morreu é que muita gente confunde nanotecnologia como sendo só grafeno e nanotubos de carbono, principalmente o primeiro. Então como a produção em larga escala de grafeno ainda não foi alcançada, as pessoas acham que não existe tanta nanotecnologia - quando na verdade ela já está aí, não?

Eu acho que tem muito mais e, graças a Deus [diz, rindo] a nanotecnologia não se limita a grafeno. No setor de vestuário tem se aplicado muita nanotecnologia. Na indústria de plástico mesmo… até na indústria do aço, em que sempre foram feitas coisas de forma mais macro, as pessoas estão chegando à conclusão de que se você precisa de propriedades aprimoradas você precisa controlar o que acontece na nanoescala. No alumínio também. O endurecimento do alumínio tem sido feito muito com o refinamento do grão até a escala nano. Alguns processos que antes eram feitos meio… “ah, a gente faz assim que dá certo”, hoje sabemos da ciência por trás. Usamos a nanotecnologia já sabendo o resultado porque já temos o princípio básico. Então a nanotecnologia é usar os fundamentos para desenvolver os processos. Antes as pessoas faziam os processos que poderiam resultar em algo na nanoescala mas não tinham certeza disso. Hoje em dia cada dia mais temos certeza disso, porque já dominamos esses princípios.

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A Nano Sanitas é um exemplo de empresa que aplica nanotecnologia para fabricação de produtos farmacêuticos voltados a animais. Créditos: Nano Sanitas

Por que vocês deram o nome do curso de nanotecnologia e não nanociência?

A ideia da gente era tecnologia mesmo [diz, rindo]! A questão de ir para a tecnologia… de garantir que a gente saia da ciência, que a gente use a ciência para garantir a tecnologia. Essa é uma pergunta boa: “por que raios a gente chamou de nanotecnologia naquela época?”. Eu acho que essa busca pela tecnologia sempre foi o grande diferencial. O curso pretende formar profissionais capacitados que não fiquem só na ciência básica, mas usem seus princípios para desenvolver tecnologia de qualidade.

Como a senhora enxerga o futuro do aluno que acabou de se formar? Quais as possibilidades para essa pessoa?

Acho que é muito diverso... Já vi alunos formando de formas muito diferentes. Alunos saindo para empresas, alunos saindo para fazer uma segunda graduação e estando muito bem empregados, aluno que ainda nem está formado e já está empregado com salário de quase-engenheiro. A gente tem um diferencial muito grande. O que acho muito importante - e a gente tem trabalhado todo dia para isso - é a garantia de que os alunos que estão se formando sejam vistos pela sociedade, pelas empresas. Que as empresas saibam “cara, eu peguei um aluno de nanotecnologia, ele é o máximo. A gente precisa dos alunos de nano”. Então temos visto um leque muito grande de possibilidades. Pessoas indo para fora, pessoas que estão desempregadas e foram fazer outras coisas. Pessoas que foram fazer um curso de pós-graduação, fizeram uma segunda graduação e estão empregadas. Pessoas que tem seu próprio negócio. É muito difícil, num curso tão diverso, você ter um perfil só. Mas eu acho que a maior parte do pessoal sai feliz por ter feito nanotecnologia. A nanotecnologia faz um diferencial para a carreira deles. Conheço pessoas que estão em empresas de cosméticos, outras em empresas de petróleo. Na IBM também. Em empresas mais gerais, onde ela faz um trabalho mais de engenheiro. Mas o pessoal de empresas de cosméticos e de petróleo tem gostado dos nossos alunos. São duas áreas que estão hoje muito fortes no estado do RJ. E muitas empresas de nanotecnologia, né? A gente tem pelo menos umas 3 empresas de nanotecnologia que tem, dentro dos seus quadros, alguns alunos nossos. Microempresas ou start-ups.

Por último: qual mensagem a senhora gostaria de passar para o aluno de ensino médio que descobriu a nanotecnologia agora, está pesquisando sobre a área e pensa em entrar para o curso?

Se você gosta de física, química e biologia - e de matemática, óbvio. Se você gosta disso, se você tem uma curiosidade científica aguçada, se você gosta de robótica, de desenvolvimento científico… se você tem esse perfil, o curso de nanotecnologia é a melhor escolha. Porque a partir dele você poderá abrir portas para ir para onde você quiser. Então o que eu digo é: se você quer aprender mais, esse é o curso que você tem que escolher.


  1. Veja o currículo do professor Gilberto e a página do professor Rodrigo Capaz. 

  2. Além de sua página no Instituto de Química, outro site interessante do professor Pierre é o Interlab

  3. Veja aqui a ementa (desatualizada) do curso de nanotecnologia. 

  4. Saiba mais sobre a Auger no site deles. 

  5. Programa de pós-graduação voltado à nanotecnologia fornecido pela COPPE (unidade da UFRJ que coordena programas de pós-graduação em engenharia). Saiba mais sobre ele. 

1 comentário

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  • Aprendi muito com esse texto. Atrair os jovens para a ciência é um desafio, e essa entrevista contribui pra isso. Parabéns pela iniciativa.